segunda-feira, 24 de agosto de 2015

"O Mundo ficou muito adulto" - Análise sobre os valores em O Pequeno Princípe

"Você será uma adulta maravilhosa". Uma frase tão simples, mas com o poder de mudança colossal. Todas as pessoas valorizam algo em outras, e quanto mais o outro mostra tal característica, mais ele é bem visto. Valores podem ser defeitos aos olhos alheios, e vice e versa, e é exatamente isso que a obra de Mark Osborne nos passa, a visão de valores por diversas pessoas em um mundo que nos molda a seu bel prazer.

A Garotinha (Mackenzie Foy) nos traz a primeira crítica do filme. Em um mundo Hipermoderno, onde os horários sobrepujam os valores, muitas vezes os pais tendem a cobrar excessivamente de suas crianças, criando  "pequenos clones", onde todos os seus sonhos frustrados tem uma nova possibilidade de se realizar. A Mãe (Rachel McAdams) é esta figura. Sem dar opção alguma a sua filha, ela literalmente molda-a a seu bel prazer, sem nem ao menos se importar com o que ela sente. Mas é claro que, a mãe também sofre a influência do mundo em que ela vive, de modo que, usando de sua experiência, ela visa um futuro majestoso para sua filha, e não mede esforços para que uma vida melhor seja proporcionada a sua filha. Eis aí o primeiro choque de ideais.

Mas as vezes ocorrem coisas na nossa vida que não planejamos, e o fator surpresa nos é retratado na figura icônica do Aviador (Jeff Bridges). Depois da hélice de seu avião invadir a casa da garotinha ao lado, eles tem o primeiro contato, e é justamente neste primeiro contato que temos mais um choque de valores. "A primeira impressão é a que conta", e com um histórico de acidentes deste tipo, o nosso idoso aviador tem uma imagem questionável na vizinhança "perfeita" que ele reside. O preconceito torna-se a sua realidade, de forma que ele já está acostumado ao modo que é tratado. Porém ele se mostra bem resiliente a tal realidade, e é justamente a sua tentativa de se aproximar da garotinha que garanti a lindíssima relação entre os dois.

É com o Aviador que a Garotinha recupera a sua infância e sua imaginação começa a ser trabalhada, uma relação de respeito e admiração entre os dois começa a se calcar sobre o alicerce da figura do Pequeno Príncipe (Paul Rudd), e é neste momento do filme que percebe-se que esta não é uma obra como Harry Potter, O Hobbit, O Senhor dos Anéis, etc., onde a preocupação se encontra no relatar dos fatos do livro da maneira mais fiel possível, mas sim, trabalhar a influência do Pequeno Príncipe (ou outro livro qualquer) na formação de uma criança e nos possíveis laços que ele te concederá. Em suma, o Pequeno Príncipe não narra a estória do livro, mas sim, os valores e a influência do livro.

Muito se pode ser dito analisando todos os personagens. O Rei nos mostra o desejo e ânsia pelo poder, mais apenas na figura de um chefe e não de um líder, onde o mando e as desculpas são os principais formadores do ego. O Homem Vaidoso é trabalhado de forma altamente crítica, uma crítica muito pesada até. Inicialmente, de um homem que apenas anseia por elogios a sua imagem, ele passa a ser a figura da lei, atuando como policial, de modo que uso da farda seja seu terno e que todos o aplaudam pelo seu trabalho "bem feito", mesmo que esse trabalho seja a tentativa de prender uma criança. É na figura do Homem de Negócios que temos a figura universal de todos os CEO de todas as grandes corporativas, lucro, lucro e mais lucro... isso é tudo que importa a ele.

A figura do Pequeno Príncipe é uma figura que sofre uma fortíssima modificação durante o filme. Inicialmente, ele é uma figura infantil que vê a beleza, a satisfação e a felicidade em coisas pequeninas, ele era a criança de vivia o momento e se deliciava com as pequenas alegrias. Mas quando os valores sofrem uma mutação, o Pequeno Príncipe também muda com elas, de modo que, da criança humilde e sonhadora, ele se torne o adolescente estagiário que busca a todo custo a aceitação de suas ações pelo seu chefe, de modo que esse seja o único modo de ele ser feliz, dependendo da aceitação de seu chefe.

E é aí que a figura do pequeno é trabalhada de forma espetacular. Não existe apenas um Pequeno Príncipe, mas sim, um Pequeno Príncipe para cada pessoa, e ele nada mais é do que a criança que vive dentro de nós, aquela que nos mostra como ser feliz com as pequenas alegrias e dividi-las com quem tu cativastes, sendo eles suas amizades conquistadas (na figura da Raposa, James Franco), ou na pessoa amada (na figura da Rosa, Marion Cottillard). Desta forma, cada príncipe é modificado de acordo com os seus valores, assim, a Esperança que não abandonou um piloto acidentado no deserto do Saara não é o mesmo sentimento de Liberdade que permeia os pensamentos de uma garotinha refém dos desejos de sua mãe, porém, eles provém do mesmo lugar, do seu príncipe interior.

As emoções chegam a seu ponto máximo quando nos defrontamos com um choque na nossa realidade, e este filme nos traz tal choque em uma das mais icônicas e fortíssimas mudanças de nossas vidas: A Despedida. Como lidar com a partida de uma pessoa cativada ? Como conter as lágrimas ao nos despedir de uma parte viva de nossas vidas ? É sempre muito difícil em um mundo que valoriza o bem material se desapegar das coisas e principalmente das pessoas, seja pela separação de um namoro que durou muito tempo, seja pela morte de um ente querido. A relação de amizade entre Garotinha e Aviador foi tão grande que ambos conseguem nos passar a sensação do perder alguém amado. E é neste momento em que o filme nos traz uma das maiores lições das várias que ele já contém, o poder de Recordar. Recordar é nunca se esquecer, de maneira que o físico "represente apenas uma casca", e os sentimentos transcendam as berreiras do material para manterem-se no metafísico. A forma como a Lembrança e a Memória são trabalhadas calcam-se no verdadeiro Amor, um sentimento que ultrapassa qualquer barreira passageira, nunca importando quem nós conhecemos ou o que nós fazemos, mas sempre, independente do tempo ou de todas as mudanças, sempre, sempre nos lembraremos de nossa Rosa, pois "o que é essencial, é invisível aos olhos".


"Então, depois de tudo isso, de todos esses valores e de ter a consciência do meu Pequeno Príncipe, o que fazer neste mundo materialista que visa pontualidade, produtividade e conformidade? Como posso lembrar de ser criança e ao mesmo tempo ser um adulto? Não tenho mais certeza se eu quero crescer...". Se esta for sua dúvida, lhe responderei com muito agrado: "O problema não é CRESCER, é ESQUECER."


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